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A Greve da Grande Família EBC

“A greve é uma ruptura com a normalidade, uma quebra da nossa própria individualidade. Desculpas para não se aderir à paralisação são incontáveis. Vou me casar, me separar, ter mais um filho, estou de mudança, preciso pagar a prestação do apartamento, etc. Os motivos são justos, mas enfraquecem o coletivo quando é mais necessário ser grupo, categoria, união. Todos têm medo. Ninguém arrisca o emprego ou ter o ponto cortado por prazer ao perigo. Contudo, na luta desigual entre patrão e empregados esta é a única chance de frear a exploração e a ganância de multiplicar lucros economizando em salários.

Em 2017, por treze dias, os colegas da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) cruzaram os braços. A decisão veio, após oito rodadas de negociação com os gestores que se negavam a qualquer reajuste e ainda desejavam retirar direitos conquistados e pactuados em outros anos. No Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Maranhão, a maioria dos colegas atendeu o chamado à luta coletiva. Foram reuniões, piquetes, atos culturais, horas de debate por Zap e em assembleias. O movimento ganhou consistência e uma visibilidade jamais vista. O ator Pedro Cardoso – o Agostinho Carrara da Grande Família – em entrevista, ao vivo, no Sem Censura, não só manifestou apoiou a greve como criticou o presidente da EBC, Laerte Rímoli, que compartilhou em rede social memes racistas ironizando a atriz Taís Araújo.

Em terra de Judiciário, a intransigência da empresa nos empurrou para a mediação junto ao Tribunal Superior do Trabalho (TST). Suspendemos o movimento paredista e chegamos a um acordo que não trouxe nenhum reajuste, nem mesmo a inflação, porém, não representou nenhum direito a menos. Dentro de um contexto de crise, além da vontade governamental em ceifar investimentos, acredito que vencemos. A nossa vitória se traduz em nossa coragem de enfrentar a inércia, o comodismo, os assédios. Aos colegas que ficaram à espera de um resultado, batendo ponto, fazendo tudo igual, minhas condolências. Perderam a chance de ser mais, de conhecer tanta gente de espírito irrequieto e apetite para fazer deste eixo de nossa existência, que é o trabalho, outra essência. Como disse um colega, citando Nietzsche, é no caos que a estrela bailarina pode cintilar intensamente. A comunicação pública resiste e a grande família dos trabalhadores da EBC está presente e pronta para seguir crescendo.”

Rodrigo Ricardo, repórter da Rádio Nacional. Começou na EBC, em 2014, na TV Brasil, em São Luís do Maranhão