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Experiências na delegação afro-brasileira na Conferência das Humanidades

Sandra Martins (*)

Entre os dias 6 e 12 de agosto, a Universidade de Liège, na Bélgica, sediou a primeira Conferência Mundial das Humanidades: Desafios e Responsabilidades para o Planeta em Transição. Sob os auspícios da sua Majestade Albert II, Rei da Bélgica, a Conferência Mundial organizada pela UNESCO e pelo Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Sociais (CIPSH). O Brasil enviou uma delegação, liderada pelo Babalawô Ivanir dos Santos. A seu convite, integrei esta equipe e faço um relato desta experiência rica e marcante, como mulher negra, acadêmica, jornalista.

A riqueza da experiência foi intensa e marcante por diversos aspectos. Primeiro, pelo espaço aberto para que intelectuais e ativistas negros/as com qualificação acadêmica expusessem suas visões sobre a questão racial no Brasil e articulações que possibilitaram conquistas. Segundo, pelo destaque a um dos temas da luta contra a intolerância religiosa, apresentada pelo Babalawô Ivanir dos Santos, na mesa Conhecimentos endógenos: tradicionais e humanidades. Foi interessante atentar de como o tema era abordado em variadas culturas e religiões no mundo. Terceiro, pelo estabelecimento de contatos com pensadores e ativistas de diversas procedências com atuação em diferentes continentes e universidades. Foram plantadas sementes para futuros intercâmbios, quer sejam acadêmicos, quer práticas sociais. E, por último, pelas inferências que devemos travar em nossa produção intelectual.

As apresentações da delegação se deram na sessão paralela Afro-brasileiros no século 21: Ativismo, Ação Afirmativa e Novas Perspectivas de Inclusão Social, articulação produzida pelo professor Lazare Ki-Zerbo, conselheiro do CIPSH (Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Sociais) da organização da Conferência, pelo Jacques d’Adesky (professor visitante da UFF) e Ivanir. Na plateia, o presidente da Conferência Mundial das Humanidades, professor Adamá Samassékou, ex-presidente da ICPHS, e ex-ministro da Educação da República do Mali, entre outras autoridades que estiveram na sessão dos intelectuais africanos.

Na sessão Afro-brasileiros no século 21, apresentei uma narrativa sobre o Prêmio Nacional Jornalista Abdias Nascimento. Um concurso criado por jornalistas negras(os) da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, órgão consultivo do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, que contou com o apoio da rede de comissões espraiada em várias entidades sindicais em todo o território nacional.

Este prêmio foi o somatório de aspirações seculares, cujo patrono se sindicalizara no então Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, em 1947, apresentando seu jornal – O Quilombo – órgão do Teatro Experimental do Negro (TEN), que fundara. Anos depois, em 2010, ele se torna realidade, como uma trilogia: fincado no presente que aponta perspectivas para o futuro de um jornalismo com vistas à consolidação de meios de comunicação plurais e igualitários.

O interesse despertado pelo conjunto das exposições na sessão paralela – Babalawô Ivanir dos Santos, Mariana Gino, Carlos Medeiros e Jacques d’Adesky – demonstrou que a delegação alcançou suas metas: promoção de diálogos, apresentação de pesquisas bem embasadas sob a perspectiva de negros(as).

Ter uma delegação de intelectuais negros e negras com qualificação acadêmica cujos orientadores são da mesma cepa induz a um outro olhar sobre o grupo. Interessante que não fica óbvio, mas é perceptível, mesmo havendo a barreira do idioma se fazendo presente, assim como as raciais e culturais. Este é um aprendizado importantíssimo: precisamos estar lá, sempre, soltando nossa voz, mostrando nossas produções, sem mediações. Há muito a fazer. Em especial, formar outras delegações afro-brasileiras de ativistas com qualificação acadêmica.

Mais informações sobre a Conferência Mundial das Humanidades <http://www.humanities2017.org/en>. Sobre a mesa dos intelectuais africanos <https://www.facebook.com/pg/adjunior86/videos/?ref=page_internal>. No facebook, podem ser acompanhadas as entrevistas feitas na Universidade de Liège, <https://www.facebook.com/CMHLiege2017/?fref=mentions>. Quanto a mesa dos intelectuais acadêmicos afro-brasileiros disponível no <https://www.facebook.com/pg/adjunior86/videos/?ref=page_internal>.

 

Sandra Martins – Jornalista, integrante da Cojira-Rio e mestranda do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ (PPGHC/UFRJ).