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POR QUE NÃO SE CONFIA MAIS NO JORNALISMO?

Crise de credibilidade, disputas profissionais e os desafios da mediação no Brasil

 *Marcio Ferreira 

Os dados mais recentes sobre a percepção pública da informação no Brasil revelam uma questão central do nosso tempo: a erosão da confiança nas instituições que organizam o debate público. Entre elas, o jornalismo ocupa um lugar particularmente sensível. Historicamente reconhecido como mediador entre fatos e sociedade, ele passa a conviver com uma desconfiança crescente, que não surge de forma espontânea, mas é resultado de transformações profundas no ambiente informacional, político e cultural. A série histórica da pesquisa Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil é clara ao apontar essa tendência. Em 2006, apenas 5,64% dos brasileiros indicavam jornalistas como uma das fontes que menos inspiravam confiança. Em 2023, esse número alcança 14,8%, quase triplicando ao longo do período. Trata-se de um sinal inequívoco de desgaste, inserido em uma crise mais ampla de confiança que atinge diferentes instituições e formas tradicionais de validação do conhecimento. 

O caso do jornalismo, no entanto, é mais sensível porque ele não é apenas mais uma instituição. Ele é, ou deveria ser, o espaço de mediação entre diferentes versões da realidade. Quando a confiança no jornalismo diminui, o que se fragiliza não é apenas a imagem de uma categoria profissional, mas a própria capacidade da sociedade de estabelecer consensos mínimos sobre o que é fato. Esse cenário se agrava em um ambiente marcado pela desinformação. A pesquisa aponta que mais de 50% dos brasileiros afirmam se deparar frequentemente com notícias falsas, o que demonstra que não estamos diante de episódios pontuais, mas de um ecossistema informacional contaminado. Nesse contexto, instala-se uma lógica de dúvida permanente. Se tudo pode ser falso, nada é plenamente confiável. Ao mesmo tempo, o critério de verdade se desloca das instituições para as relações de afinidade. As pessoas passam a acreditar mais naquilo que confirma suas crenças ou que vem de fontes com as quais se identificam. 

Esse deslocamento impacta diretamente o jornalismo. Ao perder o monopólio da informação organizada, ele passa a disputar atenção em um ambiente onde qualquer indivíduo pode produzir e disseminar conteúdo em larga escala. A distinção entre fato e opinião se dilui, e o jornalismo deixa de ser percebido como referência automática. Soma-se a isso uma crise mais ampla de autoridade. Durante décadas, jornalistas, cientistas, médicos e professores ocupavam posições relativamente estáveis como fontes legítimas de conhecimento. Hoje, essas posições são contestadas em uma arena pública ampliada pelas redes sociais. A autoridade deixou de ser atribuída apenas pelo lugar institucional e passou a depender de validação constante em um ambiente fragmentado e altamente competitivo. 

Nesse processo, o jornalismo enfrenta um problema adicional: a confusão entre o profissional e a instituição. Para grande parte do público, não há distinção clara entre o jornalista, o veículo, a linha editorial e os interesses econômicos ou políticos associados. O jornalista deixa de ser visto como mediador e passa a ser percebido como parte de um campo de disputa. Esse fenômeno é potencializado pela polarização política, que altera os critérios de julgamento da informação. Em ambientes polarizados, a veracidade perde espaço para a aderência ideológica. As pessoas não apenas desconfiam de determinadas notícias, mas rejeitam integralmente as fontes com as quais discordam. O resultado é uma fragmentação da esfera pública, na qual o jornalismo perde a capacidade de operar como espaço comum de mediação. 

É importante reconhecer, no entanto, que essa crise não pode ser atribuída exclusivamente a fatores externos. O próprio jornalismo também precisa ser analisado criticamente. Erros de apuração, excesso de opinião travestida de informação, coberturas que privilegiam o sensacionalismo e o distanciamento de determinadas realidades sociais contribuíram para alimentar a desconfiança. Além disso, a transformação do modelo de negócios da mídia impôs uma lógica que muitas vezes privilegia velocidade em detrimento de profundidade, cliques em vez de contexto, engajamento em vez de qualidade. Esses elementos reforçam a percepção de que o jornalismo, em alguns momentos, deixou de cumprir plenamente sua função de filtro qualificado da informação. 

A ascensão das redes sociais intensificou esse quadro ao introduzir uma nova economia da atenção. Conteúdos que despertam emoções fortes tendem a circular mais rapidamente, criando um ambiente em que a informação compete com narrativas simplificadas, muitas vezes distorcidas. Algoritmos reforçam bolhas informacionais, limitando o contato com perspectivas divergentes e transformando o contraditório em elemento de rejeição, e não de qualificação do debate. Nesse cenário, o jornalismo passa a ser visto, por alguns segmentos, não como instrumento de esclarecimento, mas como ameaça às suas convicções. 

Esse processo de desestruturação do lugar social do jornalismo também dialoga diretamente com decisões institucionais que impactaram a profissão ao longo das últimas décadas. A decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2009, que suspendeu a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, representa um marco importante nessa trajetória. Ao retirar um critério formal de acesso baseado em formação técnica, teórica e ética, abriu-se espaço para uma maior indefinição sobre quem é, afinal, o profissional responsável pela mediação da informação. Em um ambiente já pressionado pela desinformação, essa flexibilização contribuiu para diluir fronteiras profissionais e simbólicas, fragilizando ainda mais a percepção social sobre o papel do jornalista. 

Essa fragilização se torna ainda mais evidente diante das transformações recentes no mundo do trabalho e na comunicação digital. O crescimento dos chamados profissionais de multimídia e influenciadores digitais introduz novos atores no ecossistema informacional, muitas vezes atuando diretamente na produção e difusão de conteúdos que disputam atenção e credibilidade com o jornalismo tradicional. No entanto, diferentemente da formação jornalística, essas atividades não estão necessariamente ancoradas em processos estruturados de formação, nem em compromissos éticos consolidados, o que contribui para ampliar a confusão entre informação, opinião, publicidade e entretenimento. 

A recente tentativa de criação do Sindicato Nacional dos Profissionais de Multimídia e Influenciadores Digitais, posteriormente suspensa por decisão da Justiça do Trabalho da 2ª Região, evidencia o grau de tensão e indefinição nesse campo. Ao reconhecer a existência de sobreposição de representação e ao reafirmar o princípio da unicidade sindical, o Judiciário sinaliza que essas novas formas de atividade ainda se encontram em disputa quanto à sua natureza e enquadramento. Mais do que uma questão jurídica, trata-se de um reflexo das transformações estruturais do trabalho e da comunicação, que impactam diretamente a forma como a sociedade reconhece e distingue os profissionais da informação. 

Essa sobreposição entre jornalismo e produção de conteúdo digital, sem critérios claros de formação e responsabilidade, contribui para aprofundar a crise de confiança. Para o público, torna-se cada vez mais difícil diferenciar o que é informação verificada do que é opinião, o que é jornalismo do que é influência. Nesse ambiente, o jornalista deixa de ser identificado como aquele que opera com método, verificação e compromisso público, e passa a ser percebido como apenas mais um produtor de conteúdo. 

Apesar desse contexto adverso, a confiança não desapareceu completamente. Ela se transformou. A própria pesquisa indica que uma parcela significativa da população só acredita em uma informação quando ela é confirmada por múltiplas fontes, o que revela uma busca ativa por validação. Ao mesmo tempo, cresce a confiança em redes pessoais e em figuras com as quais há identificação. A confiança deixa de ser institucional e passa a ser relacional. O desafio do jornalismo, portanto, não é apenas recuperar a confiança perdida, mas compreender como ela está sendo reconstruída em outros espaços e sob novas lógicas. 

É nesse ponto que o papel do Sindicato dos Jornalistas se torna estratégico. Em um ambiente de crise de credibilidade, a atuação sindical não pode se restringir à defesa corporativa tradicional. Ela precisa assumir uma dimensão pública, voltada à reconstrução da confiança social no jornalismo. Isso passa, em primeiro lugar, por reafirmar os princípios éticos da profissão e por defender condições dignas de trabalho que permitam o exercício de um jornalismo de qualidade. Não há credibilidade possível sem estrutura, sem tempo de apuração e sem autonomia profissional. 

Mas o papel do sindicato vai 322além. Ele pode se posicionar como articulador de um debate mais amplo sobre informação, desinformação e democracia. Pode promover pesquisas, como a proposta no Estado do Rio de Janeiro, que permitam compreender de forma mais precisa como a população enxerga o jornalismo, quais são as causas da desconfiança e quais caminhos podem ser trilhados para reverter esse quadro. Pode, ainda, atuar na promoção de iniciativas de educação midiática, aproximando o público dos processos jornalísticos e tornando mais transparente o funcionamento da produção da notícia. 

Ao mesmo tempo, o sindicato pode contribuir para reposicionar o jornalista como mediador, e não como ator de disputa. Isso implica reforçar a distinção entre jornalismo e opinião, entre informação e militância, e recuperar a centralidade do compromisso com os fatos. Em um ambiente saturado por versões e narrativas, a valorização do método jornalístico, baseado em verificação, pluralidade de fontes e responsabilidade pública, torna-se um diferencial fundamental. 

A crise de confiança no jornalismo não é um problema restrito à categoria. Ela é um problema estrutural da sociedade contemporânea. Sem mediação qualificada, o espaço público se fragiliza, tornando-se mais suscetível à desinformação, à manipulação e à radicalização. O jornalismo continua sendo uma das poucas instituições capazes de produzir informação verificável em escala, mas sua relevância depende do reconhecimento social de sua legitimidade. Reconstruir essa legitimidade exige prática consistente, transparência e aproximação com a sociedade. 

Nesse processo, o Sindicato dos Jornalistas pode desempenhar um papel decisivo ao assumir a liderança na produção de conhecimento sobre a própria profissão, ao fomentar o diálogo com a sociedade e ao defender um jornalismo comprometido com o interesse público. Mais do que reagir à crise, trata-se de compreender suas causas e atuar de forma estratégica para reposicionar o jornalismo no centro da vida democrática. A confiança não será restaurada por discursos, mas por ações concretas que reafirmem o valor do jornalismo como instrumento essencial de mediação social. Em um tempo marcado pela incerteza informacional, reconstruir essa confiança é, ao mesmo tempo, um desafio e uma necessidade coletiva. 

*Márcio Ferreira é jornalista, mestre em Sociologia, doutorando em Sociologia Política pelo IUPERJ e diretor da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro. 

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