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LIVRO REVELA FOTOS INÉDITAS DO RIO GUARDADAS NO ARQUIVO DA CIDADE

Imagens da região da Cinelândia mostram a primeira igreja anglicana do Brasil, que já foi demolida. Pela primeira vez, o edifício do Sindicato dos Jornalistas do Rio aparece sendo construído, em junho de 1938

Rogério Marques / QuarentenaNews

O Brasil vivia a ditadura do Estado Novo, instituída por Getúlio Vargas em 10 novembro de 1937. O Rio era a capital da república e o prefeito interventor da cidade, nomeado por Vargas, era Henrique Dodsworth. Tempos de muita turbulência política no país e de grandes transformações urbanísticas no Rio, registradas no livro “Achados e perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)” (Aprazível Edições, 2026).

As imagens eram até hoje desconhecidas porque, como explica na apresentação o editor Leonel Kaz, o material estava há décadas no Arquivo Geral da Cidade. Sabia-se da existência, “mas não se sabia do volume e da importância: 14 mil imagens! A elas somou-se um trabalho feito pela direção e pelos historiadores do Arquivo no sentido de trazer à luz de nosso tempo esse material”, informa Leonel Kaz.

E que material! Que fotos espetaculares da cidade em transformação. Quase todas as imagens são de Aristógiton e Uriel Malta, filhos do grande fotógrafo Augusto Malta. Assim como o pai, eles eram funcionários da prefeitura do Rio. Na maioria das vezes não é possível saber qual dos dois irmãos é o autor das fotos, porque os negativos não estão assinados.

RELÍQUIAS DEMOLIDAS

As imagens da abertura da Avenida Presidente Vargas às vezes ganham contornos dramáticos, pela destruição de relíquias como a Igreja de São Pedro dos Clérigos, uma joia da arquitetura colonial.

Em uma das fotos, o templo aparece cercado de escombros, à espera de ser posto abaixo. Na imagem dá para ver como ele ficava próximo à Igreja da Candelária, que escapou da demolição.

A famosa Praça Onze, na região conhecida como Pequena África, berço do samba e de tantas histórias, é mostrada pouco antes de sua destruição, com o Canal do Mangue ao fundo.

Ali perto, nas fotos da família Malta, a obra de abertura da Presidente Vargas avança sobre uma parte dos jardins históricos do Campo de Santana, na altura da Central do Brasil.

É possível ver em primeiro plano, com detalhes, o que ainda restava daquele trecho do jardim projetado pelo paisagista francês Auguste Glaziou. Tudo reduzido a terra batida. Duas árvores derrubadas, lagos artificiais prestes a serem aterrados.

Outra imagem marcante, de 1940, mostra o edifício da Central do Brasil ainda sem o famoso relógio de quatro faces. Bem perto, os dois prédios do Ministério da Guerra, o novo, recém-construído, e o antigo, lado a lado, antes que o antigo fosse demolido.

SINDICATO EM CONSTRUÇÃO

Algumas fotos trazem surpresas. Na região da Cinelândia, surge uma imagem que toca a todos nós, profissionais da imprensa. Lá está, em construção, o Edifício dos Barbonos, no qual fica a sede do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio, com o auditório João Saldanha, palco de tantas lutas por melhores salários e condições de trabalho. É a primeira imagem que se tem notícia do edifício sendo erguido.

A data da foto é 28 de junho de 1938. Há mais de 50 anos o Sindicato tem sua sede naquele prédio da Rua Evaristo da Veiga, 16. Fundado em 1935, nas primeiras décadas de existência o Sindicato funcionou em outros lugares, até adquirir sede própria e se instalar naquele prédio, no começo dos anos 1970.

O nome Edifício dos Barbonos é uma referência a um antigo convento dos frades franciscanos capuchinhos, que existiu naquela rua, no local em que hoje fica o Quartel General da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Esses frades eram também conhecidos como barbadinhos ou barbonos.

A foto em que aparece o edifício em construção é de grande amplitude, rica em detalhes. O prédio está à esquerda, no canto inferior, onde se vê também, quase fora do quadro, uma das torres da Câmara dos Vereadores, o Palácio Pedro Ernesto.

Bem ao lado do Edifício dos Barbonos em construção, vemos uma pequena igreja, a Christ Church, primeiro tempo anglicano do Brasil, conhecido na época como “igreja dos ingleses”. Ele viria a ser demolido, assim como os sobrados ao lado, nas obras de reurbanização da Avenida Treze de Maio.

Em primeiro plano, aparecem os telhados da Biblioteca Nacional e do Museu Nacional de Belas Artes. Logo adiante, o Theatro Municipal, e ao fundo o Morro de Santo Antônio, demolido na década de 1950.

À direita do morro vê-se o conjunto histórico do Convento de Santo Antônio, que já era tombado na época e felizmente escapou da destruição. Ainda mais à direita, dá para ver ao longe o Morro da Providência, onde nasceu a primeira favela do Brasil.

Pelo ângulo da imagem, é bem provável que a foto tenha sido tirada do alto do edifício da Associação Brasileira de Imprensa, em final de construção. O prédio da ABI, na esquina das ruas Araújo de Porto Alegre e México, começou a ser erguido em 1936 e foi concluído no final de 1938. Era, então, um dos mais altos das proximidades.

O Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro informa que em breve vai ser lançada uma edição impressa do livro “Achados e Perdidos”, com 300 imagens. A edição digital pode ser acessada no site do Arquivo e também aqui, no link abaixo.

https://online.fliphtml5.com/yrpqc/yeos/#p=1

IMAGENS:

1 – O edifício da Central do Brasil ainda sem o famoso relógio de quatro faces. À direita, o prédio novo do Ministério da Guerra e na frente dele o antigo, à espera da demolição;

2 – O trecho do Campo de Santana destruído para a abertura da Avenida Presidente Vargas. Jardins projetados pelo paisagista francês Auguste Glaziou;

3 – A Praça Onze de Junho, cercada pela copa das árvores, em seus últimos dias. ao fundo, o Canal do Mangue;

4 – A região central do Rio em foto de grande amplitude. No canto esquerdo, na parte de baixo, o Edifício dos Barbonos sendo construído. Há mais de 50 anos o prédio abriga a sede do Sindicato dos Jornalistas do Rio e o Auditório João Saldanha. Ao lado dele, a primeira igreja anglicana do Brasil, já demolida, assim como o Morro de Santo Antônio, que aparece ao fundo. Em primeiro plano, os telhados da Biblioteca Nacional, do Museu Nacional de Belas Artes e o Theatro Municipal.

5 – A Igreja de São Pedro dos Clérigos, joia do período colonial, cercada de escombros, à espera da demolição. Dá para ver como o templo ficava perto da Igreja da Candelária.

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