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DEBATE/MOSOGINIA: NÃO BASTA IDENTIFICAR OS CONTEÚDOS, MAS SABER COMO SE SUSTENTAM E SE FINANCIAM

Um debate rico em informações e dados que reforçaram ainda mais a importância da aprovação do PL da Misoginia, em tramitação no Congresso Nacional. Assim pode ser definido o encontro realizado no dia 18 de agosto, no Sindicato, na abordagem ao tema.

O evento contou com a participação da Coordenadora de Pesquisa do NetLab/UFRJ, Luciana Belin, da Secretária da Mulher Trabalhadora da CUT/RJ, Andrea Matos, e da presidenta do SJPMRJ, Virginia Berriel. A mediação ficou a cargo da diretora de Inclusão e Diversidade do Sindicato, Carol Castro.

O painel apresentado pela pesquisadora do NetLab trouxe um amplo e detalhado quadro com o tema “Misoginia e violência contra a mulher nas redes”. Luciana Belin apresentou um questões como as estratégias discursivas e monetização da misoginia nas redes, principalmente no YouTube, ressaltando que “a indústria da desinformação e violência de gênero nas plataformas nas plataformas digitais se articulam através de estratégias linguísticas e visuais, dentro de mecanismo de monetização.

A pesquisadora destacou que “cerca de 80% dos canais misóginos identificados no YouTube possuem ao menos um recurso de monetização ativo — incluindo anúncios nativos, programas de membros, Super Chat, além de transferências bancárias e venda de produtos externos”.

Luciana Belin aponta que a misoginia online atua como um ativo financeiro das Big Techs:

– Quando a violência gera engajamento e este é convertido em lucro, o discurso discriminatório deixa de ser visto pelas plataformas como um desvio e passa a ser alimentado por seus próprios algoritmos. Não é por acaso que o volume de vídeos utilizando técnicas de deepfake cresceu 550% entre 2019 e 2023. A escala da misoginia nas redes é o lucro.

A pesquisa apresentada pelo NetLab não deixa dúvidas o quanto é lucrativo a violência de gênero e o ódio às mulheres e meninas. Nesse sentido, a IA tornou-se uma grande impulsionadora. A sofisticação das ferramentas tecnológicas e o aumento do uso abusivo da IA contra mulheres e meninas cresceu de forma exponencial.

O volume, segundo Luciana Belin, são vídeos utilizando técnicas de deepfake, que registraram um crescimento de 550% entre 2019 e 2023. E a grande parte voltada para ataque às mulheres.

“O alvo é claro: 98% desses conteúdos produzidos com IA são de caráter pornográfico não consentido, e 99% têm como alvo figuras femininas”, arremata.

Se você não pôde comparecer, assista a íntgera do debate clicando abaixo

Para além do campo virtual, a presidenta do SJPMRJ, Virgínia Berriel, abordou a baixa representatividade feminina nos cargos de decisão do movimento sindical, o que se contrapõe à realidade à expressiva presença das mulheres no mercado de trabalho. Segundo a jornalista, o ambiente de trabalho e as entidades sindicais continuam marcados pelo machismo, com a persistente desigualdade salarial de gênero. “Embora o mercado de trabalho tenha um alto contingente feminino, as mulheres continuam sub-representadas nas diretorias e presidências dos sindicatos, locais onde a maioria dos postos votados ainda é ocupada por homens”, afirma

Virgínia cita como exemplo a experiência no sindicato dos telefônicos (onde a presença feminina na diretoria gira em torno de 18% a 20%), ressaltando que a dificuldade de ocupação de espaços pelas mulheres também se repete em outros setores, como professores e químicos. DEStaca ainda que “o movimento sindical como um todo é caracterizado pela presença de comportamentos machistas e, em alguns casos, racistas e fascistas, fazendo com que as mulheres enfrentem grandes dificuldades nesses espaços”.

Na mesma linha,  a Secretária da Mulher Trabalhadora da CUT/RJ, Andrea Matos, trata a questão da perpetuação da misoginia nas estruturas institucionais do movimento sindical e no mercado de trabalho.

A sindicalista da CUT citou o contraste entre a presença feminina nas bases das categorias profissionais e a escassez de mulheres em cargos de decisão (presidências e diretorias),  como o dos telefônicos⁷ onde a participação feminina em diretoria gira em torno de 18% a 20%. “Além disso, de forma geral, trabalhadoras no Brasil continuam recebendo remunerações até 35% menores em comparação a homens na mesma função”, afirmou.

O painel também foi marcado por momentos de forte denúncia política contra episódios de violência e desmonte de políticas públicas no âmbito local. Representantes da CUT-RJ e do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (CEDIM-RJ) denunciaram a alteração da Secretaria de Estado da Mulher do Rio de Janeiro para Secretaria de Estado da Mulher e Políticas de Inclusão, criticando o enquadramento assistencialista do órgão. Também foi citada a mobilização de trabalhadoras do programa Empoderadas, que protestaram no Palácio da Guanabara devido a atrasos de mais de 300 dias no pagamento de salários.

Intervenções do feitas pelo plenário também criticaram a abordagem de veículos de imprensa em casos recentes de violência extrema (como o de uma estudante e o de uma dentista em São Paulo), apontando que a cobertura frequentemente recorre à espetacularização e à exposição indevida do rosto machucado das vítimas, enquanto ameniza a exposição dos agressores.

CAMINHOS E DESAFIOS

Ao encerramento dos debates, os participantes concordaram que o combate à misoginia exige ações integradas que superem a responsabilidade individual. O caminho passa necessariamente pelo fortalecimento de leis como a Lei Maria da Penha, pela aprovação do PL da Misoginia, pelo acompanhamento do consumo de redes sociais por crianças e adolescentes e, sobretudo, por uma cobrança rigorosa por transparência, regulação e responsabilidade das grandes plataformas de tecnologia.

A pesquisa aponta para a necessidade de regulação, moderação e intervenção institucional, não apenas para identificar conteúdos misóginos, mas também para entender como eles se sustentam e se financiam, podendo assim orientar medidas mais eficazes.

 

 

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