Uma contribuição fundamental para o entendimento da delicada situação em que se encontra o jornalista hoje no exercício da profissão, no qual a precarização da atividade jornalística coloca em xeque a sobrevivência do jornalismo sério, ético e comprometido com a informação isenta. Um cenário que debilita a saúde mental dos profissionais, comprime os salários e afeta diretamente a qualidade e a independência da informação entregue à sociedade.
O debate “Precarização e violência contra o trabalho dos e das jornalistas”, realizado pelo Sindicato na última quarta-feira, dia 12 de agosto, apresentou um quadro delicado nas relações trabalhistas, profundamente deterioradas graças à crescente pejotização, que teve como alavanca a decisão do STF, em 2009, quando derrubou a exigência do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão.
Mas a mesa do debate, composta pela jornalista e pesquisadora EPCC Fundação Casa Rui Barbosa, Patrícia Maurício; o procurador do Ministério Público do Trabalho, Marcelo José Fernandes da Silva; e a diretora de Administração e Finanças da CUT/RJ, Keila Machado, com mediação da presidente do SJPMRJ, Virgínia Berriel, também apontou caminhos.
De forma geral, a busca pela transformação do quadro atual passa pela organização coletiva à busca por valorização profissional, fiscalização de abusos e fortalecimento das redes de apoio e novos modelos independentes de comunicação.
Uma das contribuições nesse sentido, foi a pesquisa realizada pelo Sindicato junto aos jornalistas sobre o uso do kit mojo (Mobile Journalism). O equipamento é cada vez mais usado por jornalistas que trabalham em emissoras de televisão.
Na utilização do equipamento, o jornalista acumula as funções de repórter, cinegrafista, editor e operador de transmissão aumenta a sobrecarga e reduz a qualidade, acentuando ainda mais a precarização existente.
A pesquisa, apresentada pela diretora de Formação do SJPMRJ, Carmen Pereira, confirma essa assertiva, indicando – entre outros dados, que:
• Inexistência de Treinamento e Perda de Qualidade: A pesquisa apresentada pelo sindicato apontou que 75,8% dos profissionais que utilizam o Kit Mojo não receberam treinamento específico das emissoras. Além disso, 73,7% dos entrevistados afirmaram que o equipamento afeta negativamente a qualidade final da cobertura
• Acúmulo de Funções e Riscos Operacionais: O equipamento força o jornalista a atuar simultaneamente como repórter, operador de áudio e repórter cinematográfico. Em praças de alto risco, como a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, esse isolamento expõe o profissional a roubos, agressões e situações de vulnerabilidade em coberturas de conflitos.
A seguir, a mediadora do evento, a presidente do SJPMRJ, Virgínia Berriel, convocou a mesa, destacando a importância de eventos como esse, no sentido de mobilizar a categoria para o enfrentamento na luta por melhores condições de trabalho.
Veja a íntegra do debate no canal do Sindicato no You Tube no link:
Antes de ser iniciado o evento, foi feita uma homenagem ao repórter fotogrtáfico Everaldo Lima D’Alverga falecido na terça-feira, dia 11.
RESUMO DAS EXPOSIÇÕES FEITAS PELOS COMPONENTES DA MESA
A pesquisadora e jornalista Patrícia Mauricio ressaltou na sua apresentação:
• Eliminação de Postos de Trabalho: Identificou-se que a adoção do Kit Mojo serve como vetor de corte de custos operacionais, eliminando um ou dois postos na equipe externa e transferindo custos operacionais — como transporte de aplicativo — para a rotina do próprio jornalista.
• A Transição para a Fase Industrial e Operador de Máquinas: A pesquisadora Patrícia Maurício resgatou a teoria marxista para analisar a passagem do jornalismo de uma organização manufatureira — com divisão técnica do trabalho qualificado — para um modelo indústria. Nesse processo, a introdução de inteligências artificiais generativas e agênticas (capacidade de sistemas de inteligência artificial operarem com autonomia) que visa capturar a dimensão intelectual do trabalho para baratear a mão de obra, transformando o jornalista em um operador de software.
• Lucro Extraordinário e Dinâmica do Capital: O processo de constante substituição tecnológica é impulsionado pela busca do “lucro extraordinário” pelos grandes conglomerados. Conforme concorrentes adotam as mesmas ferramentas, o benefício temporário se dissipa, exigindo maior automação e acelerando a rotina de trabalho.
• Concentração Global em Plataformas Digitalizadoras: Foi destacada a assimetria entre veículos de imprensa tradicionais e megacorporações globais (como Alphabet, Meta e Microsoft)As plataformas drenam a receita publicitária dos meios locais sem remunerar adequadamente a apuração original, sufocando o financiamento das redações.
Keila Machado, segunda convidada, trouxe ao debate a perspectiva do movimento sindical sobre o impacto da transformação digital e da precarização transcontinental do trabalho:
• A Dialética da Tecnologia no Capitalismo: Keila pontuou que o avanço tecnológico — incluindo a inteligência artificial — não deve ser encarado de forma ingênua ou puramente inevitável.
• Apontou que, historicamente, inovações no modo de produção não serviram para reduzir a jornada ou aliviar o esforço da classe trabalhadora, mas sim para elevar a taxa de extração de mais-valia e intensificar a concentração de renda.
• O Caso do Setor Bancário como Espelho da Imprensa: Para ilustrar o processo em curso no jornalismo, Keila utilizou a analogia com o setor financeiro. O fechamento em massa de agências físicas e a digitalização dos serviços não resultaram em melhoria de vida para os bancários demitidos ou remanescentes; ao contrário, geraram desemprego estrutural e sobrecarga, enquanto os lucros dos grandes bancos bateram recordes históricos.
• O mesmo modelo aplica-se às empresas de mídia que adotam o “Kit Mojo” e softwares de IA: o ganho de produtividade serve exclusivamente ao superávit patronal, eliminando equipes de apoio (motoristas, operadores de áudio e repórteres cinematográficos).
• Geopolítica, Desinformação e Soberania: Chamou a atenção para o cenário político na América Latina e a ingerência das grandes corporações de mídias sociais na estabilidade democrática.
• Ressaltou que o enfraquecimento do jornalismo profissional e apurado — derivado da própria precarização do trabalho do repórter — abre margem para a proliferação de ecossistemas de fake news, enfraquecendo a organização popular e as lutas das categorias de base.
Fechando o painel dos debatedores, o promotor do Ministério Público do Trabalho, Marcelo José, desenvolveu uma reflexão crítica de caráter sociológico e jurídico a partir de sua pesquisa de mestrado sobre as transformações do direito e do trabalho:
1. A Tese do “Fascismo Econômico” e do “Neocapitalismo”
• Degradação do Pensamento Liberal: O procurador diferenciou o liberalismo filosófico dos séculos XVII e XVIII — que buscava criar consensos e tolerância política — do “neocapitalismo” ou “fascismo econômico” contemporâneo.
• Esvaziamento da Democracia Representativa: Sustentou que o fascismo econômico opera isolando a política econômica do voto popular. As urnas e a política eleitoral passam a ser confinadas a pautas de costumes e guerras culturais, enquanto a gestão da taxa de juros, o endividamento público e o investimento social são capturados por órgãos autônomos (como o Banco Central) e pela especulação financeira.
• Deslegitimação Patronal do Diálogo: A ausência deliberada de entidades patronais em mesas de debate sindical reflete, segundo ele, a mentalidade fascista de recusar o trabalhador como sujeito de direitos e interlocutor legítimo.
2. O Colapso das Instituições e a Pejotização
• A Captura do Poder Judiciário: O procurador fez duras críticas ao alinhamento das altas cortes judiciais ao projeto de flexibilização irrestrita das leis trabalhistas. Afirmou que o Judiciário vem impondo teses como a terceirização irrestrita e a “pejotização”, rasgando a proteção da relação de emprego garantida pela Constituição de 1988.
• Transferência do Risco Empresarial: A pejotização massiva (que atinge cerca de 60% da categoria dos jornalistas) transfere para o indivíduo todas as incertezas da atividade econômica. O profissional passa a arcar com os custos de seu equipamento, sua segurança física e até com eventuais responsabilizações cíveis por matérias publicadas, desobrigando a empresa de mídia de seus deveres societários e trabalhistas.
3. Do “Homem Revolucionário” ao “Homem Revoltado” (A Influência de Albert Camus)
• A Crítica ao Imobilismo: Diante da hipervigilância digital e da perda de eficácia dos métodos tradicionais de contestação, o procurador utilizou a filosofia de Albert Camus para convocar a categoria à ação.
• A Essência da Revolta: Enquanto o revolucionário busca a reestruturação total do sistema (muitas vezes caindo no dogma ou no imobilismo), o homem revoltado é aquele que, dentro do seu cotidiano, estabelece um limite claro e diz não à indignidade.
• O Papel do Sindicalismo: Defendeu que o movimento dos trabalhadores precisa resgatar essa ética da revolta: recusar o acúmulo de funções (como o uso do Kit Mojo em áreas de risco), rejeitar a perda de massa salarial e utilizar o direito constitucional de greve e paralisação como instrumento de contenção da barbárie econômica.



























