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Quando a notícia vira propaganda: Sindicato repudia cobertura jornalística da operação militar na Maré

Quando a notícia vira propaganda: nota de repúdio do Sindicato à cobertura jornalística da operação militar no Complexo da Maré

O texto abaixo foi lido durante a plenária do Congresso Nacional dos Jornalistas, em Maceió, nesta quinta (03/04)

polissa O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro manifesta o seu repúdio à linha editorial que norteou a cobertura jornalística da operação militar nas favelas da Maré, iniciada neste domingo (30/3), na maioria das edições dos veículos impressos, virtuais e de radiodifusão das empresas do oligopólio da mídia.

Acusamos como atentado ao nosso Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, pela violação aos direitos humanos que representaram a abordagem e o conteúdo adotados, em geral, nas manchetes ou chamadas, primeiras páginas, cabeças, leads, a hierarquização e a edição das notícias e editoriais desses veículos. Compreendemos como violência simbólica contra a população das favelas da Maré a linha editorial que predominou nessas edições. A começar pela escolha deliberada desses veículos pela defesa contundente da política governamental militarizada empreendida por meio da invasão armada das favelas onde vivem cerca de 130 mil pessoas. O Sindicato recebeu, inclusive, denúncias de que imagens produzidas por câmeras de filmar acopladas nos óculos de policiais militares participantes da operação foram cedidas somente a veículos de radiodifusão desse oligopólio.

Em princípio, não foi possível verificar nas coberturas qualquer relativização em torno da eficácia, testada e reprovada na história recente da própria localidade, da lógica militarizada de enfrentamento do varejo do crime instalado nessas comunidades — nem mesmo a criação de um batalhão da PM dentro da Maré conseguiu extinguir o crime relacionado ao tráfico de drogas. Pelo contrário, a presença armada do Estado na Maré tem se refletido em um histórico de mortes violentas de moradores, inclusive de crianças e de adolescentes, que já levou o governo brasileiro à repreensão internacional por parte de tribunais de defesa dos direitos humanos, em instâncias como a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Nesta mais recente operação, a cobertura do oligopólio da mídia, ao invés de servir à defesa dos direitos humanos, tem exposto a ameaças de vida e à integridade física e psicológica dos moradores, expostos tanto às pressões dos traficantes de drogas, ainda instalados nas favelas, quanto da Polícia Militar, histórica protagonista da violência local. O nosso Sindicato não compactua com a visão disseminada por essa cobertura de que a paz na Maré foi obtida como efeito imediato da ocupação militar empreendida em conjunto por Polícia Militar, Polícia Federal e Forças Armadas. Pelo contrário, denunciamos essa visão como propaganda enganosa, posta a inviabilidade da conquista da paz por meio desse fracasso histórico representado pela lógica militarizada da segurança pública, como aconteceu no Complexo do Alemão.

Não bastasse a violação dos direitos humanos por meio do conteúdo divulgado, o nosso Sindicato também verifica a omissão de informação como outro grave atentado ao nosso Código de Ética. Não temos nas edições do oligopólio da mídia acesso ao outro lado da história, o necessário e democrático contraponto à versão oficial do que tem ocorrido durante a operação militar. Para mudar essa realidade, reivindicamos a inclusão do nosso Código de Ética na Convenção Trabalhista da nossa categoria. Desse modo, teremos respaldo legal para fazer valer o respeito das empresas, em especial, à Cláusula de Consciência, que garante aos jornalistas o direito de dizer não às tarefas que firam a ética ou as suas próprias convicções, sem o risco de perder o emprego. Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro