SINDICATO DOS JORNALISTAS DO RIO: 90 ANOS DE UMA HISTÓRIA QUE AINDA TEM MUITO POR SER ESCRITA
João Batista de Abreu (*)
1935. O Rio de Janeiro, capital federal, respirava ares tímidos de uma democracia, acanhada cinco anos após o fim da República Velha. O presidente Getúlio Vargas, hóspede do Palácio do Catete, flertava com os dois lados do cenário internacional: o capitalismo capitaneado pelos Estados Unidos e as ideias nazifascistas que vinham da Alemanha e da Itália, apoiadas aqui pelo integralismo do escritor e jornalista Plínio Salgado. A Guerra Civil espanhola preponderava no noticiário do outro lado do Oceano Atlântico.
O prefeito da cidade, o médico cirurgião Pedro Ernesto, fora nomeado interventor pelo presidente. Naquele ano de 1935, a Prefeitura oficializava os desfiles das escolas de samba. A primeira vitoriosa foi a Vai como Pode, de Madureira, mais tarde Portela, seguida pela estação Primeira da Mangueira e pelo Prazer da Serrinha. O samba pede passagem.
Noel Rosa se consolidava como o poeta que vinha de Vila Isabel e conquistava toda a cidade. Ainda não havia os túneis Santa Bárbara e Rebouças, mas o talento de Noel atravessava facilmente da Zona Norte para a Zonal Sul. Quem discorda não sabia o que diz ou tem palpite infeliz.
Carmen Miranda, Francisco Alves e o maestro Pixinguinha faziam sucesso nas casas de espetáculo e gravadoras, reverberados pelas emissoras de rádio. A Mayrink Veiga era a de maior audiência. O analfabeto começa a se informar pela frequência radiofônica.
A música Cidade Maravilhosa, vencedora do concurso para escolher o hino da capital no ano anterior, fez sua estreia no Carnaval de 1935, com direito à gravação de Aurora Miranda. Até hoje a canção de André Filho encerra todos os bailes de Carnaval.
Berço do samba e das lindas canções/
Que vivem n’alma da gente/
Eis o altar dos nossos corações/
Que cantam alegremente.
Nos costumes, a cidade começava a respirar novos tempos. O bonde se afirmava como principal meio de transporte público e poucos carros circulavam pelas ruas de paralelepípedo e terra batida. Os mais de 40 jornais se consolidavam como principal meio de informação da população do Rio e da Baixada Fluminense, embora o índice de analfabetismo fosse um empecilho enorme para a disseminação do conhecimento.
Entre os jornais de maior prestígio e circulação destacavam-se o Correio da Manhã, a Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil, O Jornal, Diário Carioca, Diário de Notícias, Diário da Noite, O Radical, A Nação, O Imparcial e O Globo, entre outros.
O Hotel Copacabana Palace, construído pela família Guinle, abria as portas para a ocupação do novo bairro, com uma praia linda e límpida que ultrapassava os limites da Baía de Guanabara. Os maiôs brincavam de esconde-esconde com a beleza da mulher carioca. Os cassinos Atlântico e da Urca concentravam a atenção da noite, com atrações internacionais. Quem não tinha muito para apostar pegava a barca na Praça XV e ia tentar a sorte no Cassino Icarahy, cujo edifício hoje é ocupado pela reitoria da Universidade Federal Fluminense.
No Centro, a Mesbla e o cinema Plaza acabavam de ser inaugurados. Nos anos seguintes, os cinemas iriam constituir o que se convencionou chamar de Cinelândia.
A imagem do Cristo Redentor, com seus 38 metros, do alto dos mais de 700 metros do morro do Corcovado, ainda engatinhava na arte de abençoar a cidade. Inaugurada em 1931, havia sido fruto de uma contribuição voluntária dos fiéis cariocas (hoje conhecida como crownfundind). O Rio ganhou um novo guardião.
No futebol, o Botafogo conquistou o título de tetracampeão carioca pela Federação Metropolitana de Desportos. O mundo estava dividido até no esporte. Flamengo, Fluminense e América disputavam em outra liga. O maior estádio de futebol era o de São Januário, do Vasco da Gama, que servia de palco para os pronunciamentos presenciais de Getúlio Vargas em datas festivas.
O voto feminino abre novas frentes de afirmação política, as demandas trabalhistas saem da esfera policial e ganham reconhecimento incipiente. As ideias socialistas oferecem novo cenário político, mas a perseguição aos negros continuava, sobretudo contra aqueles que não podiam apresentar à Polícia a carteira de trabalho assinada. Os músicos eram os que mais sofriam com o preconceito.
No final de 1935, em novembro, a repressão violenta ao Levante Comunista prende mais de 2,5 mil brasileiros descontentes; centenas são torturados no DOPS. Entre os presos Luiz Carlos Prestes e Agildo Barata, da Aliança Libertadora Nacional (ALN), a médica psiquiatra Nise da Silveira, precursora do movimento antimanicomial, e até o prefeito Pedro Ernesto foi deposto e ficou preso durante 15 meses. Em Alagoas, o escritor e jornalista Graciliano Ramos, prefeito de Palmeira dos Índios. Tempo de vidas secas.
Era o alerta de que o sonho de novos ares cairia por terra com a decretação do Estado Novo e a implantação da censura dois anos depois.
O prólogo do livro Trincheira tropical – a Segunda Guerra Mundial no Rio, do escritor e jornalista Ruy Castro, traça um painel do cenário político naquele momento:
“O Brasil ainda não sabia, mas em 1935 a luta em suas fronteiras entre as três grandes esferas – o fascismo, representado pela Ação Integralista Brasileira; a democracia, brevemente pela Aliança nacional Libertadora, e o comunismo, pelo Partido Comunista do Brasil – já era a guerra. Pelos oito anos seguintes, o Rio foi o epicentro desse combate.”
De acordo com o jornalista Fichel Davit Fichel, autor do livro Subsídios para a história do Sindicato de Jornalistas do Rio de Janeiro, lançado em 2024, as primeiras tentativas de fundar uma organização de jornalistas no Rio de Janeiro datam do final do século XIX, com a criação do Clube dos Repórteres, em 1896. O jornal Dom Quixote, dirigido por Ângelo Agostini, noticiou no dia 8 de junho daquele ano.
“Com a mais viva satisfação cumprimentamos o Clube dos Repórteres, criado pela nata dos nossos companheiros de imprensa, e que parece fadado a um futuro próspero, a julgar pelas bases em que se fundou e pela seriedade e bom senso com que iniciou seus trabalhos. Ora, graças, que já nos afigura possível a agremiação dos que vivem do jornalismo, d’uma associação duradoura e respeitável!”.
Depois veio o Círculo da Imprensa, criado por Gustavo Lacerda em 1908, o repórter negro, natural de Santa Catarina, responsável pela fundação da Associação Brasileira de Imprensa. Mas o Círculo teve vida curta, segundo o livro Subsídios para a História do Sindicato de Jornalistas.
Somente em junho de 1934, após a República Velha, quando o presidente Getúlio Vargas assinou decreto regulamentando os critérios para fundação de sindicatos, em substituição à União dos Trabalhadores em Livros e Jornais (UTLJ), que abrangia também os gráficos, o sonho se tornaria realidade.
Foi neste contexto que surgiu, em fevereiro do ano seguinte, o Sindicato de Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. A primeira assembleia, realizada na antiga sede da Associação Brasileira de Imprensa, na Rua do Passeio, no Centro, elegeu Armando Peixoto, que trabalhava na agência internacional de notícias United Press, como primeiro presidente para um mandato de três anos. O vice-presidente eleito foi Augusto Pamplona, do Correio da Manhã, e o primeiro secretário, Jorge Ribeiro de Lacerda, de O Globo. De acordo com Fichel Davit, 213 jornalistas assinaram o livro de presença, que ficou à disposição por vários meses na sede.
No final da década de 1930, o Rio de Janeiro tinha mais de 1.900 pessoas que se apresentavam como profissionais de imprensa, segundo registros do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), da ditadura Vargas.
Você, jovem jornalista, ajude-nos a seguir construindo essa história. Essa é uma luta da qual vale a pena participar.
(*) Membro da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas e professor titular do curso de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense
__________________________________________
CASTRO, Ruy. Trincheiras – a Segunda Guerra Mundial, São Paulo, Companhia das letras, 2025
CHARGEL, Fichel Davit. Subsídios para a história do Sindicato de Jornalistas do Rio de Janeiro, Rio, Lâmpada Mágica, 2024.



